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Alemanha celebra o primeiro casamento gay do país

“Depois de 38 anos juntos, este é o dia pelo qual esperámos tanto tempo”, declarou ontem Karl Kreile, 59 anos, ao “The Guardian” antes de se casar com o companheiro de longa data, Bodo Mende, em Berlim. Foi o primeiro casamento gay a ser celebrado na Alemanha, depois de o Parlamento Federal ter votado pela legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo no final de junho.

Ao mesmo jornal, Mende, de 60 anos, disse ser uma “grande honra” o seu ser o primeiro casamento gay da Alemanha. “Lembro-me da vergonha que sentimos quando fomos mandados embora do cartório há 25 anos ao confrontarmos um funcionário durante um protesto organizado. Fizeram-nos sentir que éramos cidadãos de segunda.”

Um quarto de século depois, os dois homens passaram de párias a heróis. A partir de agora, e graças à lei aprovada pelos deputados federais que equipara os casais homossexuais aos heterossexuais, todas as pessoas que têm relações com outras do mesmo sexo podem casar e ter os mesmos direitos consagrados pela lei. Com isto, a Alemanha torna-se o 14.º país da Europa e o 23.º do mundo a legalizar o casamento gay.

Durante a cerimónia, Gordon Holland, o notário responsável por casar Kreile e Mende, falou pelo distrito de Schöneberg ao declarar que os seus habitantes estão orgulhosos por “terem disparado o tiro de partida simbólico” que marca a entrada da lei em vigor. Desde os anos 1920 que o distrito alberga uma das maiores comunidades LGBT de Berlim, uma espécie de São Francisco da Alemanha que, durante décadas, foi palco de centenas de protestos pelos direitos gay — incluindo aquela que é tida como a primeira manifestação popular desta natureza em todo o mundo, ocorrida em 1922.

Desde 2001 que os casais gay já eram autorizados a registar-se como “parcerias civis” na Alemanha, uma lei que, ao entrar em vigor, angariou grandes elogios de ativistas em todo o mundo por quebrar tabus e ser praticamente inédita. Contudo, demorou mais de uma década até o Estado federal dar mais um passo para legalizar o casamento gay. Quando a Irlanda se antecipou em 2015, várias ONG alemãs citaram o embaraço de o seu país ter sido ultrapassado por uma das nações do mundo com profundas raízes católicas.

Em junho deste ano, Angela Merkel espantou muita gente ao declarar a uma revista feminina que os casais do mesmo sexo “têm o mesmo valor” que os casais homossexuais, uma declaração que foi aproveitada pelo SPD, o partido minoritário da sua chancelaria, para pressionar o governo a convocar uma votação sobre o assunto. A moção apresentada antes das férias de verão foi aprovada com 393 votos a favor e 226 contra; Merkel, que anulou a disciplina de voto no seu partido, a CDU, aconselhando os deputados a votarem “em consciência”, integrou a barricada que se opôs à medida.

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