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Antes marginalizado, transgênero hoje é aceito no local de trabalho

 

Por  Claire Martin / The New York Times  

Quando Michaela Mendelsohn, proprietária e diretora executiva da Pollo West Corporation, chegou à festa de fim de ano no restaurante da sua companhia, em 2006, há um ano não via a maior parte dos seus 500 funcionários. Nesse ínterim, ela trabalhou da sua casa em Conejo Valley, sul da Califórnia, e manteve contato apenas com alguns membros da equipe.

Rumores circularam de que ela estava com câncer terminal. Mas na verdade Michaela havia se submetido a uma cirurgia para se transformar de homem em mulher, o que incluiu operações no rosto e no corpo e mudanças no seu estilo de vestir.

Sentindo-se nervosa e excitada, ela chegou e se apresentou para o pessoal. “Eles não tinham a mínima ideia de quem eu era”, disse ela. Mas a experiência foi atípica. Muitos transgêneros não conseguem se afastar do seu local de trabalho para fazer essa transição, nem têm as possibilidades de alguém que é proprietário da sua empresa.

Leis trabalhistas que protegem os transgêneros vigoram em 19 Estados americanos e no Distrito de Colúmbia juntamente com 200 cidades e condados.  Mas 30% dos trabalhadores transgêneros em todo o país são demitidos ou não são promovidos, de acordo com pesquisa feita nos Estados Unidos sobre o tema. A probabilidade de americanos transgêneros estarem desempregados é três vezes maior do que algum outro indivíduo e duas vezes maior de viver na pobreza, segundo a pesquisa feita, conduzida pelo Centro Nacional para Igualdade dos Transgêneros.

Michaela Mendelsohn, 64 anos, viu uma solução potencial para estes problemas. Michaela e outras pessoas no setor de restaurantes lutavam para encontrar funcionários confiáveis e estavam ignorando esse segmento da população.

Na Califórnia, 218.400 adultos se identificam como transgêneros e no plano nacional são 1.4 milhão, segundo estudo realizado pelo Williams Institute da UCLA School of Law. “Não podemos nos permitir ignorar esta mão de obra que pode realmente nos ajudar”, disse ela.

Michaela começou então a recrutar candidatos transgêneros para trabalhar em seus restaurantes. Em 2015 fundou a TransCanWork, entidade sem fins lucrativos que se associou à Associação de Restaurantes da Califórnia, além de outros grupos. A entidade oferece cursos para empregadores sobre práticas na contratação de transgêneros e nas atividades gerais. E facilita os contatos de transgêneros com futuros empregadores; um salário fornecido pelo Estado paga pelas primeiras 60 horas de salário de cada novo empregado.

A TransCanWork é o primeiro programa em grande escala deste tipo no país. A entidade adotou em parte como modelo o trabalho realizado pelo Los Angeles LGBT Center, e foi criada depois do Trans Employment Program, iniciativa que já dura uma década do San Francisco LGBT Center, que oferece serviços de emprego para a população transgênero da Bay Area.

Nos últimos anos iniciativas similares surgiram em Chicago, Washington, Seattle e Denver e programas ainda incipientes existem hoje em Nova York, Las Vegas, San Diego e Atlanta.

“Em grande parte o transgênero é marginalizado porque não consegue emprego”, disse Mara Keisling, diretora executiva do Centro Nacional para Igualdade dos Transgêneros. “Até recentemente os empregadores basicamente diziam o seguinte: ‘não, você é transgênero. Não interessa’. Mas nos últimos anos isso tem mudado”, disse Keisling. “Agora, a resposta é que você não se encaixa no perfil desejado.”

Segundo Michaela Mendelsohn, muitos transgêneros resistem a ir a entrevistas de emprego por medo de serem maltratados. Um registro através da TransCanWork tem por objetivo ajudar os candidatos a um emprego se sentirem mais tranquilos nas entrevistas e também mostrar aos patrões como é fácil é contratar empregados transgêneros.

In an undated handout photo, Michaela Mendelsohn, center, the owner of El Pollo Loco restaurants, with Katie Couric, second from right, and three transgendered employees. Mendelsohn, who is transgender, has hired 40 transgender workers in the last five years and started TransCanWork, a nonprofit that trains employers to become transgender-friendly in their hiring practices and their overall operations. (Handout via The New York Times) -- NO SALES; FOR EDITORIAL USE ONLY WITH TRANSGENDER HIRING ADV19 BY CLAIRE MARTIN FOR MARCH 19, 2017. ALL OTHER USE PROHIBITED. --

Michaela Mendelsohn (ao centro), dona do El Pollo Loco restaurantes, com Katie Couric (segunda à direita), e três empregadas transgênero. The New York Times

 

O treinamento inclui um vídeo de curta duração que abrange temas como a utilização de banheiros, uso de pronomes transgêneros e que tipo de perguntas fazer. Consultas sobre cirurgia são proibidas, por exemplo.

Nos últimos cinco anos a Pollo West Corporation contratou 40 funcionários transgêneros. Segundo Michaela a resposta dos clientes tem sido positiva e seus funcionários vêm galgando postos; cerca de 25% deles foram promovidos a posições de gerência.

Ela pretende estender o trabalho da TransCanWork para os setores de varejo, hotelaria, tecnologia e de atividades sem fins lucrativos. E ela vem mantendo conversações com a California State Bar e outras agências estaduais sobre a possibilidade de instruir setores maiores sobre os novos regulamentos relacionados à contratação de empregados transgêneros.

Na opinião dela, o setor de restauração também está bem colocado para ajudar a apresentar a população em geral para a comunidade transgênero, indicando que a Califórnia tem 70.000 restaurantes que empregam 1.3 milhão de pessoas.

Segundo Marie Angel Hoole e Walker Miner, empregados transgêneros em um dos restaurantes El Pollo Loco de Michaela Mendelsohn e foram contratados através da TransCanWork, trabalhar para uma empresa que os aceita fez uma enorme diferença.

Walker Miner, que é de Palau no Oceano Pacífico, teve dificuldades em arranjar um trabalho quando se mudou para os Estados Unidos. “No que se refere aos empregadores é complicado. Um rapaz entra usando maquiagem e eles imediatamente dizem que não estão interessados”.

Seus patrões no El Pollo Loco são mais compreensivos. “É melhor trabalhar para alguém e não ter de explicar constantemente o que você é ou pedir por favor que reconheçam sua identidade de gênero”, disse ela.

Marie Angel Hoole, que trabalhou em restaurantes nos últimos 10 anos, passou um ano procurando emprego em Los Angeles, mas não conseguiu ser contratada apesar do extenso currículo. Finalmente no ano passado fez uma entrevista em um dos restaurantes de Michaela Mendelsohn. Um mês depois foi contratada como caixa e atendente em um drive-thru.

O processo não foi assustador e ela diz que seu novo ambiente de trabalho é mais inclusivo. “A sensação é de que existe uma irmandade”, afirmou.  / Tradução de Terezinha Martino

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